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catecismo da igreja católica
 
 
catecismo da igreja católica
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A Profissão de Fé - CREDO
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por Ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus, e encarnou pelo Espirito Santo, no seio da Virgem Maria e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras; e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai.
De novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.
Creio no Espirito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: Ele que falou pelos Profetas.
Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica.
Professo um só Baptismo para remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo que há-de vir.
 
A Celebração do Mistério Cristão - SACRAMENTOS
  1. Baptismo
  2. Eucaristia
  3. Confirmação
  4. Reconciliação
  5. Unção dos Enfermos
  6. Ordem
  7. Matrimónio
 
A Vida em Cristo - MANDAMENTOS
01 - Adorar a Deus e ama-l'O sobre todas as coisas;
02 - Não invocar o santo nome de Deus em vão;
03 - Santificar os Domingos e festas de guarda;
04 - Honrar pai e m„e e outros legÌtimos superiores;
05 - Não matar, nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo;
06 - Guardar castidade nas palavras e nas obras;
07 - Não furtar, nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo;
08 - Não levantar falsos testemunhos, nem de qualquer outro modo faltar à verdade ou difamar o próximo;
09 - Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos;
10 - Não cobiçar as coisas alheias.
 
A Oração Cristã - PAI NOSSO
Pai nosso, que estais nos céus,
santificado seja o vosso nome;
venha a nós o vosso reino;
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje;
perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido;
e não nos deixeis cair em tentação;
mas livrai-nos do mal.
 
Bem-aventuranças
FELIZES OS QUE TÊM CORAÇÃO DE POBRES,
PORQUE DELES É O REINO DOS CÉUS!

FELIZES OS QUE CHORAM,
PORQUE DEUS OS CONSOLARÁ!

FELIZES OS HUMILDES,
PORQUE TERÃO COMO HERANÇA A TERRA PROMETIDA!

FELIZES OS QUE TÊM ÂNSIA DE CUMPRIR A VONTADE DE DEUS,
PORQUE DEUS LHES SATISFARÁ OS ANSEIOS!

FELIZES OS QUE TRATAM OS OUTROS COM MISERICÓRDIA,
PORQUE DEUS OS TRATARÁ COM MISERICÓRDIA TAMBÉM!

FELIZES OS SINCEROS DE CORAÇÃO,
PORQUE HÃO-DE VER A DEUS!

FELIZES OS QUE PROCURAM A PAZ ENTRE OS HOMENS,
PORQUE DEUS LHES CHAMARÁ SEUS FILHOS!

FELIZES OS QUE SÃO PERSEGUIDOS POR CUMPRIREM A VONTADE DE DEUS,
PORQUE É DELES O REINO DOS CÉUS!

 
Juizo definitivo Mateus 25,31-46
«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os cabritos.
O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’
Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’
Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’
Estes irão para o suplício eterno, e os justos, para a vida eterna.»
 
Obras de Misericórdia
CORPORAIS
ESPIRITUAIS
  1. Dar de comer a quem tem fome;
  2. Dar de beber a quem tem sede;
  3. Vestir os nus;
  4. Dar pousada aos peregrinos;
  5. Assistir aos enfermos;
  6. Visitar os presos;
  7. Enterrar os mortos.
  1. Dar bom conselho;
  2. Ensinar os ignorantes;
  3. Corrigir os que erram;
  4. Consolar os tristes;
  5. Perdoar as injúrias;
  6. Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;
  7. Rogar a Deus por vivos e defuntos.
 
Pecados Capitais e as virtudes correspondentes
  1. Soberba
  2. Avareza
  3. Luxúria
  4. Ira
  5. Gula
  6. Inveja
  7. Preguiça
  1. Humildade
  2. Liberalidade
  3. Castidade
  4. Paciência
  5. Temperança
  6. Caridade
  7. Diligência
 
Carta de S. Tiago 2,14-24.26
De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo?
Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano,
e um de vós lhes disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?
Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta.
Mais ainda: poderá alguém alegar sensatamente: «Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me então a tua fé sem obras, que eu, pelas minhas obras, te mostrarei a minha fé.
Tu crês que há um só Deus? Fazes bem. Também o crêem os demónios, mas enchem-se de terror.»
Queres tu saber, ó homem insensato, como é que a fé sem obras é estéril?
Não foi porventura pelas obras que Abraão, nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o seu filho Isaac?
Repara que a fé cooperava com as suas obras e que, pelas obras, a sua fé se tornou perfeita.
E assim se cumpriu a Escritura que diz: Abraão acreditou em Deus e isso foi-lhe contado como justiça, e foi chamado amigo de Deus.
Vedes, pois, como o homem fica justificado pelas obras e não somente pela fé.
Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta.
 
Carta a Diogneto - Escrita cerca de 150 anos após a morte de Cristo
Exórdio

1. Excelentíssimo Diogneto, vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente, te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que essa nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes. Aprovo esse teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.

Refutação da idolatria

2. 1Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoaram em tua mente; despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; 2não é verdade que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor do que aquele que serve para fazer os utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis? 3Tudo isso não é de material corruptível? Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro, e o oleiro outro? Não é verdade que, antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora, transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses? 4E, ao contrário, esses que agora adorais, não poderiam transformar-se, por mão de homens, em utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são todas destrutíveis? 5A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais, e terminais sendo semelhantes a elas. 6Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram deuses. 7Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que eles? Por acaso, não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra e de barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de prata e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados? 8Com as honras que acreditais tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade, os castigais com elas; por outro lado, se são insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue e gordura. 9Caso contrário, que alguém de vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas. Mas o homem, espontaneamente, não suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é insensível. 10Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não se submeter a esses deuses. Se o que eu disse parecer insuficiente para alguém, creio que seja inútil dizer mais alguma coisa.

Refutação do culto judaico

3. 1Por outro lado, creio que desejas particularmente saber por que eles não adoram Deus à maneira dos judeus. 2Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos antes, e prestam culto a um só Deus, considerando-o Senhor do universo. Contudo, erram quando lhe prestam um culto semelhante ao dos pagãos. 3Assim como os gregos demonstram idiotice, sacrificando a coisas insensíveis e surdas, eles também, pensando oferecer a Deus coisas, como se ele tivesse necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não com ato de culto. 4“Quem fez o céu e a terra, e tudo o que neles existe,” e que provê tudo aquilo de que necessitamos, não tem necessidade nenhuma desses bens. Ele próprio fornece as coisas àqueles que acreditam oferecê-las a ele. 5Aqueles que crêem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e holocaustos, e que o enaltecem com esses atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam reverência a ídolos surdos, que não podem participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo a quem de nada precisa.

O ritualismo judaico

4. 1Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento com jejuns e novilúnios, coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração. 2Não será injusto aceitar algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como bem criadas e rejeitar outras como inúteis e supérfluas? Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem no dia de sábado? 4Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição, acreditando com isso ser particularmente amados por Deus? 5E o fato de estar em perpétua vigilância diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de Deus, e dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras para luto? Quem não consideraria isso prova de insensatez e não de religião? 6Penso que agora tenhas entendido suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano, assim como das complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creias poder aprender do homem o mistério de sua própria religião.

O mistério cristão

5. 1Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. 2Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. 3Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. 4Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal. 5Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira. 6Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. 7Põem a mesa em comum, mas não o leito; 8estão na carne, mas não vivem segundo a carne; 9moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; 10obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; 11amam a todos e são perseguidos por todos; 12são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, desse modo, lhes é dada a vida; 13são pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo; 14são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; 15são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; 16fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. 17Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, e aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

A alma do mundo

6. 1Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo. 2A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo. 3A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. 4A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. 5A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. 6A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. 7A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. 8A alma imortal habita numa tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. 9Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. 10Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

Origem divina do cristianismo

7. 1De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios humanos. 2Ao contrário, aquele que é verdadeiramente Senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações. Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séquito da lua em seu percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual tudo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio. Foi esse que Deus enviou. 3Talvez como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração? 4De modo nenhum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência. 5Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar. 6Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar a sua presença? 7Não vês como os cristãos são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? 8Não vês como quanto mais são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? 9Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.

A encarnação

8. 1Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse? 2Quererás aceitar os discursos vazios e estúpidos dos filósofos, que por certo são dignos de toda a fé? Alguns afirmavam que Deus é o fogo - para onde irão esses, chamando-o deus? - Outros diziam que é água. Outros ainda que é um dos elementos criados por Deus. 3Não há dúvida de que se algumas dessas afirmações é aceitável, poderíamos também afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus. 4Mas todas essas coisas são charlatanices e invenções de charlatães. 5Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas ele próprio se revelou a nós. 6Revelou-se mediante a fé, unicamente pela qual é concedido ver a Deus. 7Deus, Senhor e criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente. 8Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será: clemente, bom, manso e verdadeiro. Somente ele é bom. 9Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o comunicou somente ao Filho. 10Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. 11Todavia, quando, por meio do seu Filho amado, revelou e manifestou o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as coisas: não só participar dos seus benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria jamais esperado.

A economia divina

9. 1Quando Deus dispôs tudo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas apenas os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também para que ficasse claro que por nossas próprias forças era impossível entrarmos no Reino de Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso. 2Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou totalmente claro que a única retribuição que podíamos esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com misericórdia tomou sobre si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais. 3De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? 4Por meio de quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus? 5Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muitos é reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros. 6Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até mesmo o impossível. Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e o considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem preocupações com a roupa e o alimento.

A essência da nova religião

10. 1Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai. 2Deus, com efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem, enviou-lhes seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino no céu, e o dará àqueles que o tiverem amado. 3Depois de conhecê-lo, tens idéia da alegria com que serás preenchido? Como não amarás aquele que tanto te amou? 4Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá. 5A felicidade não está em oprimir o próximo, ou em querer estar por cima dos mais fracos, ou enriquecer-se e praticar violência contra os inferiores. Desse modo, ninguém pode imitar a Deus, pois tudo isso está longe da sua grandeza. 6Todavia, quem toma sobre si o peso do próximo, e naquilo em que é superior procura beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus, é como Deus para os que recebeu de sua mão, é imitador de Deus. 7Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus. Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás aqueles que são castigados por não querer negar a Deus. Condenarás o engano e o erro do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentará até o fim aqueles que lhe forem entregues. 8Se conheceres esse fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, pela justiça, suportaram o fogo passageiro.

O discípulo do Verbo

11. 1Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas. Discípulo dos apóstolos, torno-me agora mestre das nações e transmito o que me foi entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos da verdade. 2De fato, quem foi retamente instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender com clareza o que o mesmo Verbo claramente mostrou aos seus discípulos? O Verbo apareceu para eles, manifestando-se e falando livremente. Os incrédulos não o compreenderam, mas ele guiou os discípulos que julgou fiéis, e estes conheceram os mistérios do Pai. 3Deus enviou o Verbo como graça, para que se manifestasse ao mundo. Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos e acreditado pelos pagãos. 4Desde o princípio, ele apareceu como novo e era antigo, e agora sempre se torna novo nos corações dos fiéis. 5Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como Filho. Por meio dele, a Igreja se enriquece e a graça se multiplica, difundindo-se nos fiéis. Essa graça inspira a sabedoria, desvela os mistérios, anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as regras da fé nem ultrapassar os limites dos Padres. 6Celebra-se então o temor da lei, reconhece-se a graça dos profetas, conserva-se a fé dos evangelhos, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da Igreja exulta. 7Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer e quando quer. 8Com efeito, quantas coisas fomos levados a vos explicar com zelo pela vontade do Verbo que no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor essas mesmas coisas que nos foram reveladas.

A verdadeira ciência

12. 1Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o amam com lealdade. Transformam-se em paraíso de delícias, produzindo em si mesmos uma árvore fértil e frondosa, ornados com toda a variedade de frutos. 2Com efeito, nesse lugar foi plantada a árvore da ciência e a árvore da vida; não é a árvore da ciência que mata, e sim a desobediência. 3Não é sem sentido o que está escrito: No princípio Deus plantou a árvore da ciência da vida no meio do paraíso, indicando assim a vida por meio da ciência. Contudo, por não tê-la usado de maneira pura, os primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. 4De fato, não há vida sem ciência, nem ciência segura sem verdadeira vida, e por isso as duas árvores foram plantadas uma perto da outra. 5Compreendendo essa força e lastimando a ciência que se exercita sobre a vida sem a norma da verdade, o Apóstolo diz: “A ciência incha; o amor, porém, edifica.” 6De fato, quem pensa que sabe alguma coisa sem a verdadeira ciência, testemunhada pela vida, não sabe nada: é enganado pela serpente, não tendo amado a vida. Aquele, porém, que sabe com temor e procura a vida, planta na esperança, esperando o fruto. 7Que a ciência seja coração para ti; a vida seja o Verbo verdadeiramente compreendido. 8Levando a árvore dele e produzindo fruto, sempre colherás o que é agradável diante de Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura em engano; nem Eva é corrompida, mas reconhecida como virgem. A salvação é mostrada, os apóstolos são compreendidos, a Páscoa do Senhor se adianta, os círios se reúnem, harmoniza-se com o mundo e, instruindo os santos, o Verbo se alegra, pelo qual o Pai é glorificado. A ele, a glória pelos séculos. Amém.

Tradução: Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin

Padres Apologistas, Paulus Editora